Marcello José Abbud explica que, quando o assunto é cidades sustentáveis, a imagem mental costuma incluir ciclovia, parque linear e prédio com painel solar. A mudança mais profunda, porém, raramente aparece no cartão-postal: ela acontece na rota do caminhão de coleta e no destino final das toneladas de resíduos que cada município produz por dia.
O motivo é prático. Nenhuma política de arborização compensa um lixão contaminando o lençol freático da periferia. Prossiga a leitura e veja que a base da transformação verde está nos serviços invisíveis: saneamento, drenagem e, sobretudo, o manejo daquilo que a cidade descarta todos os dias, sem pausa e sem feriado.
O que está mudando na gestão municipal de resíduos?
Durante décadas, a gestão municipal de resíduos se resumiu a uma equação de remoção: tirar o lixo da frente das casas e levá-lo para longe. Esse modelo está ruindo por três lados ao mesmo tempo. A legislação determinou o fim dos lixões; os aterros ficaram caros e distantes à medida que as manchas urbanas cresceram, e a população passou a cobrar coleta seletiva como serviço básico, não como projeto piloto de gestão.
Outra mudança vem da base do setor. Marcello José Abbud destaca que as cooperativas de catadores, antes toleradas nas margens do sistema, passaram a ser contratadas formalmente como prestadoras do serviço de triagem. Para o município, é mão de obra especializada que já existia; para milhares de famílias, é a passagem do lixão para a formalidade.
Há ainda uma virada silenciosa no financiamento. A legislação recente do saneamento passou a exigir sustentabilidade financeira do manejo de resíduos, o que empurra prefeituras a instituir cobrança específica pelo serviço. Quem tratava o lixo como despesa diluída no orçamento agora precisa apresentar contas que fecham.
Do passivo ao ativo: o resíduo como recurso urbano
Um aterro que capta o biogás da decomposição e o converte em eletricidade deixa de ser apenas um passivo ambiental controlado: vira infraestrutura energética. Usinas de triagem recuperam materiais que retornam à indústria, e a compostagem transforma restos de feiras e podas de árvores em insumo agrícola. O resíduo, nesses arranjos, muda de natureza: sai da coluna de custo e entra na de recurso disponível.
Marcello José Abbud ressalta que a pergunta dos gestores públicos mudou de forma reveladora: antes era onde enterrar, agora é o que ainda se aproveita antes de enterrar. Essa inversão de raciocínio, mais do que qualquer equipamento, é o que define a nova fase.

O que vem aí para os municípios?
A próxima década tende a ser marcada por três movimentos. O primeiro é a regionalização: municípios pequenos, sem escala para bancar aterro ou usina própria, se organizam em consórcios para dividir estrutura e custo. O segundo é a entrada de dados na operação, com rotas de coleta otimizadas por software e pesagem que transforma cada caminhão em fonte de informação. O terceiro é a participação privada, por meio de concessões que transferem o investimento e cobram desempenho em contrato.
Nada disso é enfeite tecnológico, comenta Marcello José Abbud. Consórcio, dado e contrato de desempenho atacam exatamente os três gargalos históricos do setor, que são escala insuficiente, decisão sem informação e descontinuidade a cada troca de governo. É a primeira vez que as três frentes avançam juntas em tantas cidades.
Existe também um filtro novo no dinheiro. Bancos de fomento e organismos internacionais passaram a condicionar financiamento urbano a metas ambientais verificáveis, e a destinação dos resíduos é uma das primeiras planilhas auditadas. Prefeitura que não arruma essa casa não acessa o crédito que pagaria o restante da agenda verde.
A cidade verde que o morador sente antes de ver
Marcello José Abbud resume que a transformação verde, quando chega por esse caminho, não se anuncia em inauguração de parque. Ela aparece como rua sem ponto viciado de lixo, córrego que volta a correr limpo, orçamento público que para de sangrar com a remediação de áreas contaminadas e postos de saúde menos pressionados por doenças que a destinação adequada evitaria.
Cidades sustentáveis não são aquelas que ostentam mais ícones ecológicos, mas sim aquelas que priorizam a resolução de questões que geralmente são ignoradas. Fechar de forma eficaz o ciclo dos resíduos é o primeiro passo nessa jornada, um verdadeiro teste para determinar quantas prefeituras estão realmente dispostas a avançar.

