Investigados por suposto recebimento de propina ligada às obras do Contorno Leste, dois vereadores foram afastados e depois reconduzidos ao cargo.
Nenhum episódio marcou tanto o cenário político municipal de Cuiabá em 2025 quanto a Operação Perfídia. Deflagrada pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor), da Polícia Civil de Mato Grosso, no dia 29 de abril, a operação investigou um suposto esquema de propina envolvendo vereadores e representantes de uma empreiteira responsável pelas obras do Contorno Leste. O caso sacudiu o Legislativo Municipal e desencadeou meses de crise institucional, debate jurídico sobre direitos dos parlamentares e intensa repercussão na opinião pública.
Na abertura da operação, foram cumpridos 27 mandados judiciais, incluindo buscas e apreensões em gabinetes de vereadores, quebra de sigilo de dados telefônicos e eletrônicos e sequestro de bens. Os vereadores Sargento Joelson (PSB) e Chico 2000 (PL) foram afastados de seus cargos, e suplentes passaram a ocupar as cadeiras no plenário da Câmara. Ambos negaram as acusações.
O Que a Investigação Aponta
As apurações da Deccor indicaram que os dois parlamentares teriam recebido vantagens indevidas da empresa responsável pelas obras do Contorno Leste, em troca de apoio político para aprovação de um projeto de lei que viabilizava pagamentos milionários à empreiteira. O valor da propina apontado nas investigações chegou a R$ 250 mil, conforme divulgado pelo portal CenárioMT.
A Polícia Civil utilizou um conjunto robusto de recursos investigativos: além das buscas físicas em gabinetes, foram analisadas câmeras de monitoramento da própria Câmara Municipal, além de dados telemáticos e financeiros dos cinco investigados iniciais. A operação contou com o apoio de unidades especializadas como o CORE, a DEFAZ, o GCCO e o DENARC, além da equipe da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), o que demonstra o porte e a complexidade do caso.
Os vereadores investigados sempre sustentaram sua inocência. Sargento Joelson classificou a investigação como uma “armação” motivada por interesses políticos e empresariais. Chico 2000 afirmou confiar na Justiça e negou qualquer envolvimento no esquema. O processo segue em andamento.
Os Desdobramentos Jurídicos e o Retorno dos Vereadores
O afastamento dos dois parlamentares gerou uma disputa paralela nos tribunais. A Justiça de Mato Grosso determinou que a Câmara Municipal continuasse pagando o salário de R$ 26.080,98 a cada um deles mesmo durante o período de afastamento, sob o entendimento de que a medida cautelar não equivale a condenação ou penalidade formal. A decisão, proferida no final de maio de 2025, gerou críticas de outros parlamentares e da opinião pública, especialmente porque o custo se duplicava com os suplentes também recebendo pelos mesmos meses.
No segundo semestre, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT) concedeu habeas corpus e autorizou o retorno de Sargento Joelson ao exercício do mandato. Pouco depois, o mesmo entendimento foi estendido a Chico 2000. Com isso, ambos voltaram às suas cadeiras na Câmara antes do encerramento do ano legislativo, encerrando o período de afastamento mas sem que as investigações da Operação Perfídia fossem encerradas. As apurações continuam em andamento pela Deccor.
O Legado Político do Caso Para Cuiabá
A Operação Perfídia deixou marcas que vão além do episódio em si. O caso expôs a fragilidade de mecanismos de controle dentro do Legislativo Municipal e acendeu o debate sobre a necessidade de maior transparência nos processos de votação de projetos de lei que envolvem contratos públicos de grande vulto. Para muitos analistas, a crise de 2025 na Câmara de Cuiabá serviu como um alerta sobre os riscos que obras de infraestrutura urbana, quando mal fiscalizadas, oferecem para a integridade institucional.
O episódio também repercutiu no cenário político estadual, alimentando discussões sobre o perfil dos candidatos que devem disputar as eleições de 2026. Com as investigações em curso e o julgamento de mérito ainda por vir, os efeitos da Operação Perfídia na política cuiabana tendem a se prolongar pelos próximos anos. Para o eleitor, o caso reforça a importância de acompanhar de perto a atuação dos parlamentares e os destinos dos recursos públicos investidos na cidade.
Fontes: MidiaNews | CenárioMT | Defesa Civil MT
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

