Tecnologia desenvolvida com participação do IFMT usa inteligência artificial para reconhecer insetos em lavouras de soja e milho e gerar informações para o manejo agrícola.
Uma tecnologia desenvolvida com participação de pesquisadores do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), em Cuiabá, coloca a inteligência artificial no centro de uma aplicação diretamente ligada a um dos setores mais importantes da economia mato-grossense. O sistema AgroInsect foi apresentado em pesquisa publicada em setembro de 2026 na revista científica Computers and Electronics in Agriculture e transforma um smartphone em ferramenta para identificação de pragas agrícolas, georreferenciamento das ocorrências e apoio ao monitoramento das lavouras. (IFMT Cuiabá)
A novidade chama atenção especialmente em Mato Grosso porque combina tecnologia e produção agrícola sem depender necessariamente de equipamentos especializados. A proposta permite que parte do processamento da inteligência artificial seja realizada diretamente no aparelho, característica importante para propriedades rurais onde a conectividade pode ser limitada. O estudo também envolve pesquisadores do IF Goiano e da Birmingham City University, no Reino Unido, e foi desenvolvido com apoio de instituições como MCTI, Finep, CNPq, Capes e Fapeg. (Open Access)
Como funciona a inteligência artificial desenvolvida com participação do IFMT?
O AgroInsect foi projetado para identificar pragas agrícolas a partir de imagens captadas por smartphones. A tecnologia utiliza um modelo de inteligência artificial baseado em visão computacional que consegue analisar fotografias feitas no campo, reconhecer espécies de interesse agrícola e registrar informações relacionadas à ocorrência. Na prática, isso cria uma possibilidade de transformar o celular, equipamento já presente na rotina de muitos produtores e trabalhadores rurais, em uma ferramenta complementar de acompanhamento da lavoura. (ScienceDirect)
A pesquisa trabalha com quatro espécies relevantes para culturas como soja e milho: Diabrotica speciosa, Dalbulus maidis, espécies de Diceraeus e Spodoptera frugiperda. Além da identificação, o sistema associa os registros à localização e utiliza processamento geoespacial para produzir mapas que ajudam a visualizar a distribuição das ocorrências. Segundo o artigo científico, o modelo selecionado para implantação alcançou 79,3% de precisão média na métrica principal de detecção e 95,1% de acurácia geral nos testes de campo descritos pelos pesquisadores. (ScienceDirect)
Um dos aspectos mais relevantes para Mato Grosso está justamente na possibilidade de funcionamento parcial diretamente no aparelho. O artigo científico descreve uma arquitetura híbrida, na qual a inteligência artificial faz a detecção no dispositivo e posteriormente os dados podem ser sincronizados com uma estrutura em nuvem para análises espaciais mais amplas. Isso pode ser importante em propriedades rurais distantes dos grandes centros, porque reduz a dependência de uma conexão permanente para executar a etapa inicial de reconhecimento. (ScienceDirect)
Por que essa tecnologia pode ser importante para o agronegócio de Mato Grosso?
Mato Grosso possui uma enorme área dedicada à produção agrícola, o que torna o monitoramento de pragas uma questão econômica e operacional. Quando uma infestação é percebida tardiamente, o produtor pode enfrentar aumento de perdas, necessidade de intervenções mais amplas e maior dificuldade para determinar exatamente onde está o problema. Uma ferramenta capaz de registrar ocorrências e indicar sua distribuição espacial pode contribuir para decisões mais localizadas, embora sua utilização prática dependa de validações, condições de campo e integração com a orientação técnica adequada.
A principal contribuição potencial não está simplesmente em substituir o trabalho de agrônomos, técnicos ou produtores, mas em ampliar a quantidade de informações disponíveis para essas decisões. Ao fotografar uma ocorrência, o usuário pode gerar um registro que posteriormente ajuda a construir um histórico da propriedade, identificar áreas com maior concentração de determinada praga e acompanhar a evolução do problema. O próprio IFMT destaca que a proposta é transformar dados coletados diretamente no campo em informações capazes de apoiar o monitoramento e o manejo localizado. (IFMT Cuiabá)
Esse tipo de tecnologia também pode abrir espaço para novas soluções desenvolvidas dentro do próprio ecossistema de inovação de Mato Grosso. Empresas de agrotecnologia podem trabalhar com dados agrícolas, sistemas de monitoramento, sensores, conectividade rural e plataformas de gestão, enquanto instituições de ensino podem formar profissionais capazes de atuar na interseção entre agronomia, computação, inteligência artificial e análise de dados. O registro do aplicativo AgroInsect no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) também demonstra que a solução avançou para além de uma ideia conceitual de pesquisa. (Revista RPI)
O que muda para produtores, empresas e profissionais nos próximos anos?
O avanço de soluções como o AgroInsect reforça uma tendência importante para o agronegócio mato-grossense: a tecnologia não precisa estar restrita a grandes máquinas ou estruturas caras. Aplicativos, inteligência artificial, georreferenciamento e processamento de dados podem ser incorporados progressivamente às atividades de campo, criando ferramentas voltadas para problemas específicos. Para Cuiabá, isso também representa uma oportunidade de aproximar universidades, institutos federais, startups, empresas do agronegócio e produtores em torno de soluções desenvolvidas a partir de necessidades reais do estado.
O desafio, entretanto, será transformar resultados de pesquisa em ferramentas acessíveis, confiáveis e simples de utilizar em diferentes condições de produção. A pesquisa publicada mostra resultados promissores, mas também registra limitações relacionadas à disponibilidade e distribuição dos dados espaciais, o que significa que o desempenho pode variar conforme as condições de uso. Além disso, a identificação automatizada de uma praga deve ser entendida como apoio à tomada de decisão, e não como substituição automática da avaliação profissional ou das recomendações técnicas específicas para cada lavoura. (ScienceDirect)
Para o mercado de trabalho, a expansão desse modelo pode aumentar a demanda por profissionais que saibam combinar conhecimento agrícola e tecnológico. Técnicos, agrônomos, desenvolvedores, especialistas em dados e profissionais de suporte podem encontrar novas funções relacionadas à coleta, interpretação e utilização de informações digitais no campo. Em Mato Grosso, onde o agronegócio possui forte peso econômico, a formação de mão de obra capaz de operar essas ferramentas pode se tornar tão importante quanto a própria aquisição da tecnologia.
A proximidade entre pesquisa e produção também pode favorecer a criação de soluções adaptadas à realidade regional. A experiência do AgriHub Conecta, que mobilizou 2,5 mil produtores em sua terceira edição e realizou 32 testes de campo com nove startups, mostra que existe espaço para testar tecnologias diretamente nas propriedades antes de ampliar sua adoção. O programa identificou conectividade, custos, energia e mão de obra entre os gargalos enfrentados pelo setor, questões que ajudam a explicar por que soluções tecnológicas precisam ser desenvolvidas considerando as condições reais do campo mato-grossense. (Diario de Cuiabá)
O próximo passo será acompanhar como pesquisas desse tipo evoluem para aplicações comerciais e programas de adoção em escala. Em Cuiabá, a realização da Semana Acadêmica de Tecnologia, Computação e Inovação da UFMT entre 30 de setembro e 2 de outubro também mostra como tecnologia e formação profissional continuam ganhando espaço no ambiente acadêmico local. (Sematec UFMT) Se a inteligência artificial conseguir combinar precisão, baixo custo e funcionamento adequado em áreas com conectividade limitada, ferramentas desse tipo poderão ampliar a digitalização do campo e criar novas oportunidades para o ecossistema tecnológico de Mato Grosso.
Fontes: IFMT | Pesquisa sobre o AgroInsect · Artigo científico na Computers and Electronics in Agriculture · Birmingham City University | publicação do estudo · INPI | Registro do aplicativo AgroInsect · Diário de Cuiabá | AgriHub Conecta 2026

