Testes com startups mostram como ferramentas digitais podem melhorar a produção, enquanto infraestrutura e conexão ainda limitam a adoção no campo.
A tecnologia está deixando de ser apenas uma promessa para se tornar parte da rotina do agronegócio de Mato Grosso. Um dos sinais mais recentes vem dos resultados da terceira edição do AgriHub Conecta, programa que mobilizou cerca de 2,5 mil produtores no estado e realizou 32 testes de tecnologias diretamente em propriedades rurais. A iniciativa colocou nove startups em contato com produtores para verificar, em condições reais, se as soluções conseguem responder aos problemas enfrentados no campo.
Para Cuiabá, o movimento interessa mesmo quando os testes acontecem longe da capital. A cidade concentra empresas, instituições de ensino, profissionais especializados, fornecedores e organizações que fazem parte da cadeia de inovação ligada ao agronegócio mato-grossense. A principal dúvida que surge agora é prática: até que ponto essa transformação tecnológica pode chegar às empresas, aos trabalhadores e aos produtores, e quais obstáculos ainda precisam ser resolvidos para que a inovação avance em escala?
O que os novos testes mostram sobre a tecnologia no agronegócio de Mato Grosso
O AgriHub Conecta foi estruturado justamente para aproximar problemas reais das propriedades de empresas capazes de desenvolver ou oferecer soluções tecnológicas. Na edição de 2026, 2,5 mil produtores participaram do levantamento, enquanto 32 testes foram realizados com nove startups e 27 produtores responsáveis pela validação das ferramentas. O programa também envolveu 58 sindicatos rurais, 150 técnicos de campo da Assistência Técnica e Gerencial e 19 supervisores de campo, criando uma rede que vai além da simples apresentação de produtos tecnológicos.
Entre as soluções avaliadas aparecem ferramentas relacionadas a solo, gestão pecuária, monitoramento de incêndios e outros desafios da produção. Segundo os resultados divulgados, a Solusolo, voltada à recuperação biológica do solo, recebeu avaliação máxima em intuitividade e teve relatos de melhora nos processos por todos os produtores participantes daquele teste. A NoFlame, direcionada ao monitoramento remoto de incêndios, também recebeu nota máxima em intuitividade, enquanto a InLida, ferramenta de gestão pecuária com funcionamento offline, apresentou avaliações positivas de suporte e facilidade de uso. Esses resultados não significam que todas as propriedades terão os mesmos ganhos, mas mostram a importância de testar a tecnologia antes de ampliar sua adoção.
O ponto mais importante para Mato Grosso é que a inovação está sendo confrontada com as condições reais do território. Uma ferramenta pode funcionar adequadamente em demonstrações ou ambientes controlados e encontrar dificuldades quando chega a uma fazenda com grandes distâncias, infraestrutura limitada, necessidade de funcionamento remoto e equipes com diferentes níveis de familiaridade tecnológica. O próprio levantamento do AgriHub apontou infraestrutura e tecnologia entre os principais desafios relatados pelos produtores, ao lado de custos operacionais, crédito, finanças, logística, mão de obra, energia e frete.
Por que a conectividade continua sendo um problema para o campo mato-grossense
A expansão de ferramentas digitais no agronegócio depende de uma condição básica: conseguir utilizar a tecnologia onde a produção acontece. Sistemas de gestão, monitoramento remoto, coleta de dados, comunicação entre máquinas e plataformas de acompanhamento podem perder parte de sua utilidade quando a conexão é instável ou inexistente. Por isso, o debate sobre inovação em Mato Grosso não envolve apenas aplicativos, inteligência artificial ou sensores, mas também infraestrutura de telecomunicações, energia e capacidade técnica para operar essas ferramentas.
Essa questão também ajuda a explicar por que Cuiabá tem importância estratégica nesse processo. A capital funciona como um ponto de encontro entre empresas de tecnologia, universidades, instituições de apoio ao empreendedorismo, organizações do agronegócio e profissionais que desenvolvem soluções para diferentes regiões do estado. Quando uma tecnologia criada ou aprimorada nesse ecossistema consegue resolver um problema de uma propriedade distante, o impacto potencial não fica restrito ao produtor: pode alcançar fornecedores, transportadoras, consultorias, prestadores de serviços e trabalhadores especializados.
O diagnóstico do AgriHub mostra ainda que a demanda tecnológica não se resume ao aumento da produtividade. Entre os desafios mapeados aparecem redução de custos, acesso ao crédito, qualidade e sustentabilidade, mão de obra e manejo do solo. Isso abre espaço para soluções que ajudem o produtor a tomar decisões com mais informação, controlar despesas, acompanhar indicadores ambientais, organizar a gestão financeira e enfrentar problemas de operação. O programa registrou, por exemplo, que entre as áreas atendidas pelas tecnologias selecionadas estavam redução de custos operacionais, acesso ao crédito, selos de qualidade e sustentabilidade, mão de obra e manejo do solo.
Como a transformação digital pode criar oportunidades em Cuiabá
O avanço da tecnologia no campo pode gerar oportunidades para Cuiabá justamente porque a capital está conectada a uma cadeia econômica que ultrapassa os limites urbanos. À medida que produtores passam a utilizar mais ferramentas digitais, aumenta também a necessidade de profissionais capazes de instalar, operar, interpretar e manter essas soluções. Isso pode ampliar a procura por especialistas em tecnologia da informação, análise de dados, automação, agronomia digital, gestão, conectividade e suporte técnico, além de estimular empresas locais a desenvolver serviços voltados especificamente para o agronegócio.
A formação profissional tende a ganhar importância nesse cenário. Um levantamento recente sobre a indústria de Mato Grosso mostrou que menos de 10% dos trabalhadores formais do setor tinham ensino superior completo em 2025, indicando que a qualificação continua sendo um desafio relevante para atividades que exigem conhecimentos técnicos mais avançados. Embora o dado seja específico da indústria, ele ajuda a dimensionar a necessidade de ampliar a formação profissional no estado diante de uma economia que incorpora cada vez mais tecnologia. Em Cuiabá, universidades, instituições de ensino e empresas podem desempenhar papel importante na criação de cursos e capacitações alinhados às novas demandas.
Outro caminho está no fortalecimento das startups e dos negócios de base tecnológica. O AgriHub Conecta recebeu 141 empresas inscritas, das quais 117 foram consideradas elegíveis e 14 chegaram à etapa de validação prática, segundo o balanço divulgado pela CNA. O levantamento também indicou que 80% das agtechs selecionadas já atuavam em Mato Grosso e 88% tinham equipes de até 15 colaboradores, mostrando a presença de empresas relativamente pequenas em um mercado que pode crescer à medida que soluções comprovadas encontram novos clientes.
Para o consumidor e o trabalhador de Cuiabá, os efeitos podem aparecer de maneira indireta. Uma agricultura mais eficiente pode influenciar cadeias de abastecimento, logística, prestação de serviços e geração de renda, enquanto a expansão das empresas de tecnologia pode criar novas ocupações e oportunidades de empreendedorismo. O desafio, daqui para frente, será fazer com que a transformação digital não fique concentrada em grandes propriedades ou empresas com maior capacidade de investimento, mas alcance também produtores menores e regiões onde a infraestrutura ainda é limitada.
Os próximos meses devem mostrar quais das tecnologias testadas conseguem avançar da fase experimental para aplicações mais amplas. O resultado dependerá não apenas da eficiência das ferramentas, mas também do custo, da conectividade, da facilidade de uso, da capacitação dos usuários e da capacidade de integração com a rotina das propriedades. Para Cuiabá, acompanhar esse movimento significa observar também a formação de um mercado de serviços tecnológicos ligado ao agro, com potencial para aproximar inovação, educação e geração de empregos. O avanço da tecnologia no campo, portanto, não depende somente de criar novas soluções, mas de construir as condições para que elas funcionem no território mato-grossense.
Fontes consultadas: CNA Brasil, com os resultados do AgriHub Conecta 2026 · AgriHub Conecta, página oficial do programa · Diário de Cuiabá, reportagem sobre tecnologia no campo em Mato Grosso · Prefeitura de Cuiabá

