Evento nacional realizado na capital colocou soluções de inteligência artificial e dados no centro da transformação digital do Judiciário.
A transformação digital do setor público ganhou um novo capítulo em Cuiabá nos últimos dias, com a realização do 6º FestLabs Nacional, encontro que reuniu representantes do sistema de Justiça de diferentes partes do país para discutir inteligência artificial, dados, automação e novos modelos de atendimento. Realizado nos dias 20 e 21 de agosto, o evento teve como tema “Justiça Híbrida: Humanos, Dados e Inteligência Artificial” e colocou Mato Grosso no centro das discussões sobre inovação no Poder Judiciário. (Conselho Nacional de Justiça)
Para quem vive em Cuiabá e no restante de Mato Grosso, a importância do encontro vai além da realização de um evento tecnológico. O Tribunal de Justiça de Mato Grosso apresentou soluções desenvolvidas localmente, algumas delas já incorporadas a iniciativas de compartilhamento nacional. Isso abre uma discussão prática sobre como a inteligência artificial pode influenciar o acesso à Justiça, acelerar processos, apoiar servidores e, ao mesmo tempo, criar novos desafios relacionados à segurança de dados, transparência e supervisão humana.
Por que a inteligência artificial discutida em Cuiabá pode afetar os cidadãos?
A principal mudança provocada pela inteligência artificial no Judiciário não está necessariamente em substituir pessoas, mas em automatizar atividades que consomem tempo e recursos. O Conselho Nacional de Justiça vem tratando tecnologia, dados e automação como instrumentos para melhorar a eficiência dos tribunais, facilitar a gestão e ampliar a capacidade de prestação de serviços à sociedade. O programa Justiça 4.0, por exemplo, trabalha com automação, gestão de dados e compartilhamento de soluções tecnológicas entre diferentes órgãos. (Conselho Nacional de Justiça)
Na prática, isso pode significar mudanças para quem precisa consultar processos, receber informações, acompanhar uma ação ou utilizar algum serviço judicial. Sistemas capazes de organizar grandes volumes de documentos, localizar informações e auxiliar na elaboração de tarefas administrativas podem reduzir etapas repetitivas e permitir que servidores concentrem mais tempo em atividades que exigem análise humana. Para uma população que depende de serviços públicos digitais, ganhos de velocidade e disponibilidade podem representar uma experiência mais simples e previsível.
O impacto potencial também aparece em áreas que ultrapassam o atendimento tradicional dos tribunais. O CNJ lançou durante o FestLabs quatro soluções digitais do programa Conecta, sendo três desenvolvidas pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso: LexIA, OMNIA e Hannah. A quarta ferramenta, LIA3R, foi idealizada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região. O objetivo do programa é justamente permitir que soluções criadas para resolver problemas específicos possam ser compartilhadas e utilizadas por outras instituições. (Conselho Nacional de Justiça)
Essa capacidade de transformar uma solução criada em Mato Grosso em uma tecnologia aproveitada nacionalmente é relevante para o ecossistema local de inovação. O Estado passa a aparecer não apenas como consumidor de tecnologia produzida em grandes centros, mas também como ambiente capaz de desenvolver ferramentas próprias para problemas complexos. Para universidades, empresas de tecnologia, profissionais de dados e startups de Cuiabá, esse movimento pode ampliar oportunidades de cooperação e estimular a formação de mão de obra especializada.
O que a LexIA e outras ferramentas do TJMT mostram sobre o futuro?
Um dos destaques de Mato Grosso no processo de inovação é a LexIA, plataforma de inteligência artificial generativa desenvolvida pelo próprio TJMT. A ferramenta foi selecionada entre as iniciativas do 3º Prêmio de Inovação do Poder Judiciário e levou o primeiro lugar na categoria Tecnologia Judicial Inovadora, na modalidade de Inovações com Resultados Comprovados. O reconhecimento ocorreu durante o FestLabs, em Cuiabá, reforçando a posição do tribunal no desenvolvimento de soluções próprias de inteligência artificial. (Conselho Nacional de Justiça)
A importância desse tipo de tecnologia está na possibilidade de apoiar tarefas que envolvem grande quantidade de informação jurídica. Uma ferramenta de inteligência artificial pode auxiliar na localização e organização de conteúdos, na análise de documentos e em outras atividades previamente definidas, desde que existam regras claras para seu uso. Isso não significa que decisões judiciais possam simplesmente ser entregues a um algoritmo, pois a responsabilidade institucional e a análise humana continuam sendo elementos fundamentais do processo.
O próprio debate realizado em Cuiabá mostrou que a evolução tecnológica precisa caminhar junto com a preparação das pessoas. Durante o FestLabs, especialistas discutiram não apenas ferramentas digitais, mas também novos modelos de trabalho, governança, métodos de experimentação, desenho de serviços e o papel humano diante do avanço da inteligência artificial. O encontro reuniu quase 600 integrantes do sistema de Justiça, mostrando a dimensão nacional que a discussão alcançou em Mato Grosso. (TJMT)
Para Cuiabá, esse cenário cria uma oportunidade que pode ultrapassar os limites do Judiciário. Quanto maior a demanda por profissionais capazes de trabalhar com inteligência artificial, dados, segurança digital e automação, maior tende a ser a necessidade de capacitação local. Instituições de ensino, empresas e órgãos públicos podem encontrar espaço para desenvolver cursos, projetos e parcerias voltados às novas competências. O resultado pode ser um mercado de trabalho mais conectado às tecnologias que estão sendo incorporadas ao serviço público.
Quais são os riscos e as próximas mudanças para Cuiabá?
O avanço da inteligência artificial no serviço público também exige cuidados. Sistemas utilizados pelo Judiciário lidam com informações potencialmente sensíveis, documentos processuais e dados pessoais, o que torna segurança da informação, controle de acesso e governança tecnológica elementos indispensáveis. Quanto maior for a automação, maior também será a necessidade de mecanismos que permitam identificar erros, corrigir resultados inadequados e estabelecer claramente quem responde por decisões tomadas com auxílio tecnológico.
Outro desafio é evitar que a digitalização aumente a distância entre o cidadão e o serviço público. Nem todos possuem a mesma qualidade de conexão, familiaridade com plataformas digitais ou condições para resolver problemas exclusivamente pela internet. Por isso, a transformação tecnológica precisa ser acompanhada de acessibilidade, canais de atendimento adequados e alternativas para pessoas que enfrentam dificuldades no ambiente digital. Em uma cidade como Cuiabá, marcada por diferentes perfis de renda e acesso à tecnologia, esse cuidado será decisivo para que a inovação represente inclusão, e não uma nova barreira.
A experiência apresentada pelo TJMT também mostra que Mato Grosso pode disputar espaço em uma economia cada vez mais baseada em tecnologia e conhecimento. O reconhecimento nacional da LexIA e a nacionalização de outras ferramentas desenvolvidas no Estado demonstram que soluções criadas localmente podem alcançar escala quando existe cooperação institucional. (RepórterMT)
Nos próximos meses, a tendência é que a inteligência artificial continue avançando em serviços públicos, mas com maior atenção à governança, à capacitação dos profissionais e à avaliação dos resultados. Para Cuiabá, o principal efeito pode estar na combinação entre inovação institucional e formação de mão de obra qualificada. Se universidades, empresas e órgãos públicos conseguirem transformar esse movimento em conhecimento, empregos e novos serviços, a capital poderá fortalecer sua posição no ecossistema tecnológico de Mato Grosso. O debate iniciado no FestLabs, portanto, não termina com o evento: ele aponta para uma disputa por eficiência, talentos e inovação que tende a ganhar importância nos próximos anos.

