São 147 quilômetros de estrada de terra entre Poconé e Porto Jofre, cortados por mais de uma centena de pontes de madeira. A Transpantaneira, como frisa Wilson Bachega Junior, é o caminho clássico para quem quer ver a onça-pintada no Pantanal de Mato Grosso, e os entusiastas consideram que o sucesso da viagem se decide muito antes de pisar nela.
Ver o maior felino das Américas em liberdade não depende só de sorte. Depende de época, de logística e de comportamento dentro do barco. Quem acerta essas três variáveis aumenta bastante as chances de um encontro que a maioria dos visitantes guarda para a vida inteira.
Escolha o período da seca
O calendário vem antes de qualquer reserva. Na cheia, a água se espalha pela planície, os animais se dispersam e trechos inteiros ficam alagados. Na seca, que costuma ir de julho a outubro, o cenário se inverte: a água se concentra nos rios, e a fauna inteira se aproxima das margens.
Para a onça, essa mudança é decisiva. Ela caça capivaras e jacarés justamente onde o rio encolhe, e passa as horas quentes descansando à sombra da vegetação ribeirinha. Wilson Bachega Junior aponta que muita gente escolhe a data pelas férias escolares, quando o certo seria escolher pelo nível da água.
Dentro da própria seca há diferenças. Julho e agosto oferecem temperaturas mais amenas, enquanto setembro e outubro trazem calor intenso e, em alguns anos, fumaça de queimadas, mas também os rios mais baixos e os avistamentos mais frequentes.
Percorra a Transpantaneira sem pressa
Um tuiuiú pousado no ninho, um bando de araras sobrevoando a estrada, um jacaré atravessando a pista. A Transpantaneira não é só deslocamento, é o primeiro safári da viagem.

Por isso o ideal é reservar o dia inteiro para o trajeto, rodar devagar e parar com frequência. As pontes exigem atenção, sobretudo depois de chuvas fora de época, e veículo alto ajuda nos trechos mais irregulares. Pousadas espalhadas ao longo da estrada permitem dividir o percurso e aproveitar o amanhecer, horário em que a fauna está mais ativa. Vale também abastecer o veículo em Poconé, porque as opções de combustível ao longo do caminho são escassas.
Faça de Porto Jofre a base dos passeios de barco
No fim da estrada, o rio assume. De Porto Jofre partem os barcos rumo ao Parque Estadual Encontro das Águas, onde os rios Cuiabá, Piquiri e São Lourenço se cruzam e formam uma das maiores concentrações de onças-pintadas conhecidas.
Os passeios costumam durar o dia inteiro, e o guia faz toda a diferença. Pilotos experientes conhecem os indivíduos da região, leem rastros na areia e trocam informações por rádio com outros barcos. Na avaliação de Wilson Bachega Junior, contratar um condutor local é o investimento que mais pesa no resultado, mais até do que o equipamento fotográfico. Ainda assim, um binóculo e uma lente de alcance médio ajudam, já que muitos avistamentos acontecem a dezenas de metros, entre galhos e capim alto.
Respeite o animal durante o avistamento
A onça apareceu na margem. A reação instintiva é se aproximar, falar alto, ligar o motor para mudar de ângulo. Tudo isso encurta o encontro e estressa o animal.
A conduta recomendada é manter distância, desligar ou reduzir o motor e limitar o tempo diante de cada indivíduo, especialmente quando vários barcos se juntam no mesmo ponto. Uma onça tranquila continua caçando, nadando ou dormindo à vista, e é exatamente esse comportamento natural que vale a viagem. Um animal acuado, ao contrário, some na mata em segundos e leva consigo a chance de todos os barcos ao redor.
A paciência rende mais do que a pressa. Para Wilson Bachega Junior, quem vai ao Pantanal só para riscar a onça da lista perde o que a região tem de mais raro: a chance de entender como um ecossistema inteiro se reorganiza em torno da água.

